Ao longe, brilhando no ritmo das nuvens,
surge o segundo sol. No dia seguinte já não havia sol. No dia seguinte já não
havia esperança. Mas o mundo seguiu adiante, na reconstrução por um objetivo
maior. Tempos em que o dinheiro não mais importava. Todos os seres distintos se
uniram, formando uma única sociedade: Humana.
Atualmente nos unimos para ajudarmos os
pobres aflitos. As áreas onde domina o desespero necessitam e muito de nossa
caridade. Por isso, o senado de São Paulo aprovou o envio de centenas de
helicópteros contendo suprimentos às nações inferiores. Faça sua parte também,
e nos ajude a ajudar países como os Estados Unidos, onde quase tudo está
dominado pelo deserto, e a Europa Central, onde antes era conhecida como Suíça.
Nossa agencia de turismo oferece a você uma
esplendorosa viagem às águas esverdeadas do Mar Amazônico®. Lá, você poderá
conferir a exposição de fotos em nosso museu, relembrando os tempos em que as
últimas árvores foram cortadas.
Queda na conexão.
Dezembro de
2007. Dois jovens corriam para manter o fôlego. Estavam enfrentando uma subida
dolorosa. Subir a Emílio Carlos exigia muita perseverança, e talvez um pouco de
falta de senso, pelo fato de a Inajar ser uma reta e parar no mesmo lugar.
- Está
acabando! – disse o da bicicleta cinza aro vinte.
Logo atrás, o
da bicicleta vermelha aro vinte e quatro forçou a pedalada. Estavam cada vez
mais perto da grande descida. Os freios de ambos não funcionavam como deveria,
mas isso não os impedia de fazer a última loucura como a equipe de dois.
Enfim
alcançaram a descida, e por um longo instante os dois sentiram a liberdade, a
emoção por estar deslizando em harmonia com o vento.
Velocidade
descontrolada. Delicado equilíbrio. Pés em atrito com o asfalto. Olhos
lacrimejantes. Muro à frente.
Em sincronia
com os pneus dianteiros, ambos param ao mesmo tempo e na mesma faixa de
pedestre.
Ao entardecer,
cada um tomou seu rumo. O da bicicleta cinza retornou para arrumar as malas. O
outro continuou parado no fim da ciclovia, admirando a ponte da Freguesia.
Parecia fim de festa. Um grande desânimo tomou o lugar da adrenalina.
O celular
tocou. A injúria ruiu.
- Estou
chegando. – disse a voz do outro lado, e tudo foi resolvido numa questão de
dias. Dentro desse vai e vem, alguns ficaram para trás. Não propositalmente,
mas pelo enjoativo desânimo que em poucos restara.
Cada um com
seu par. Cada um com sua intriga. Cada um com sua crise. Todos vivendo da
incerteza de um fim, ou de um novo começo. A estrada prossegue e arrasta a
todos, querendo ou não. Redundância inevitável.
A densa
neblina aos poucos se desfaz. Onde não se via nada, reinava a ingenuidade.
Agora se vê tudo. O céu está claro e sujo. Tempos de reflexão profunda. Saber escolher,
saber se encaixar na sociedade, na comunidade. Vida determinada pelo capital.
Futuro obscuro. Estradas se separam, outras se juntam.
Conectando...
“Urb,
responde! Onde você ta? Volte agora! É urgente... A colônia está bloqueada. Não
conseguimos sair, precisamos de ajuda. Por favor, vá buscar socorro! Não resta
mais esperança em todo o setor Norte. Procure Dlm, rápido.”
- Puta que
pariu! – Urb gritou, pasmo.
As rodas
travaram, e seus pés adormeceram. Olhou para a linha do horizonte. Não pôde ver
uma cidade normal, mas um emaranhado de circuitos prestes a explodir em milhões
de pedaços. O mundo da desilusão...
A Linha, onde
antes passava o Rio Tietê, era agora um grande risco no mapa, coberto por uma
substância apodrecida. Nela passavam milhares de fios e raios estridentes,
formando uma espécie de artéria pulsante.
Um raio
dourado passou rente à orelha de Urb, deixando para trás seu som agudo. Do
outro lado, os UpCars corriam como nunca, penetrando a barreira protetora. Um
raio chocou-se contra a barreira e estilhaçou escandalosamente sua energia
radioativa. Era arriscado continuar parado ali, apenas admirando o começo do
fim.
O fim. E um
novo começo. Urb podia sentir infinitas freqüências sobrecarregando sua mente.
Não fazia idéia do que poderia encontrar no setor Oeste, por isso precisava
tentar. Sua vida necessitava desse baque.
Voltou a
pedalar.
Não pôde
evitar. Olhou para cima. Lá estavam eles, os dezenove cabos de aço que
sustentavam São Paulo. Eram imensos, e balançavam com o vento gélido. A noite
enfim chegou. Urb prosseguiu cada vez mais rápido. A barreira estava próxima.
Deu uma última espiada no céu, despedindo-se de algo que nunca mais veria em
sua vida.
A bicicleta
oscilou. Urb colocou os pés no chão para se equilibrar, pisando em um pedaço de
carne apodrecida. Ergueu os pés, e seu estômago embrulhou. Atropelara o que um
dia foi um cachorro.
Começa a
descida. A bicicleta encaixa na Canaleta®. Urb forçou a vista. Não podia mais
controlar seu rumo. Uma voz metálica falou em sua cabeça:
“A partir de
agora, você está conectado. Não haverá retorno em um raio de treze quilômetros.
Ao ultrapassar a barreira, você estará sujeito a alterações em seu sistema, ou
seja, seqüelas expostas e efeitos colaterais. Caso você tenha achado o show de
luzes da Linha assustador, perca sua fé em uma provável sobrevivência. E seja
cauteloso na hora de atravessar a parede de distorção temporal. Boa viagem.”
- Fodeu!!! –
berrou Urb, fechando os olhos com força.
Seu guidão
começou a tremer enquanto o marcador era levado lentamente aos 150 Km por hora.
“Contra todos
os males da tristeza, experimente nosso novo produto. A Unilever proporciona a
você a solução para todos os problemas de sua vida. Se quiser, podemos
controlar suas vontades! É simples e fácil. Combate a mais fulminante das
brigas entre qualquer ser humano. É de fácil aplicação e não agride seu bolso.
Nós encontramos a solução! Quem diria que encontraríamos tanto poder em
costumes tão antigos. Eis nossa receita para você praticar em quem precisa ser
consolado ou perdoado. Sorria e abrace.”
“A incrível e
subliminar arte de ser subliminar. Parece simples e fácil, mas esconder a
verdade através de uma mensagem não é confortante para quem as escreve. A
vontade é de revelar tudo de uma vez, mas não dá. A verdade é cruel e
comprometedora, fora o medo que enfrenta seu autor. Por exemplo, quando se quer
falar para alguém que ele não presta, joga-se uma idéia do tipo ‘conheço uma
pessoa parecida com você, mas a diferença é que ela não presta’. Isso poderá
até soar como um elogio. Uma coisa ruim transformada em uma maravilha, por não
ser verdadeiramente exposta. E a pergunta é: Onde se que chegar com isso?”
“O poço é
fundo. É fácil entrar. É difícil sair. É menos difícil sair quando se tem um
braço lá em cima, puxando-o aos poucos. É ótimo saber que sempre haverá braços
estendidos. E a questão que incomoda (...)
Assim a
mensagem pára.”
Queda na conexão.
- Ale...
- Diga.
- Nada,
esquece.
“O vírus que
se propagou em nosso sistema, de acordo com o último pronunciamento do
presidente de São Paulo, está fora de controle. Tudo que podemos fazer, quando
um membro apodrece, é amputá-lo. E é o que faremos com o setor Norte. A área
mais afetada será submetida a um regime fechado, numa quarentena definitiva. Se
você é do setor Norte e está ouvindo esta transmissão, dentro de uma hora todo
o sinal será cortado. Ninguém mais poderá entrar ou sair sem autorização. Uma
rígida segurança será instalada nas fronteiras com a Linha. Obviamente
ficaremos com apenas doze cabos de aço, mas é para o bem de nossa
sobrevivência. Um adeus aos futuros defuntos.”
O portal em breve será fechado † vitoriosos serão os
azarados mais sortudos † deste mundo encurralado † Pela eterna briga dos que se
dizem moribundos.
Em tempos caóticos
Sobrevive a esperança
Da felicidade
O tempo dirá
Seu destino
que é movido
Por sábias escolhas
Olhar
expandido
Respirar
sempre e contar
Com os
companheiros
Que sempre contigo
Estarão pra lhe ajudar
Com que for possível
Alexandre M Arcari
(19/06/2008
– 21:38)