segunda-feira, 21 de maio de 2012

Na Pista


O barulho era ensurdecedor. Ao mesmo tempo que perfeito para Gustavo. Seu copo, já pela metade, balançava sobre a cabeça enquanto abaixava os braços aos poucos num movimento que aproximou seu corpo com o dela. Derrubou um pouco nela sem querer, mas a garota provavelmente não notara. Passou a outra mão suavemente pelas costas molhadas, tentando disfarçar a arte. Que se dane, pensou Gustavo, eu tô bêbado e ela também.

- Você é linda. – gritou Gustavo no ouvido dela. Cada vez mais perto, quase roçando os respectivos tórax. – Qual é o seu nome?





Ela sorriu, e isso o deixou nervoso. Odiava quando resposta vinha em forma de sorriso. Por mais que ela também estivesse afim, aquele ritual feminino mais parecia desdém do que outra coisa aparentemente boa para a aproximação. Gustavo pôs então o canudo em sua boca e sugou com veemência todo o resto de saquê com energético. Sorriu também, erguendo uma sobrancelha como se pudesse controlar a situação.

- Regra número um de qualquer balada. – ela tocou sua orelha com os lábios. Era de arrepiar. – Não se pergunta o nome na balada. – Afastou-se e encarou o garoto, triunfante. Mascava seu chiclete de hortelã lentamente, movimentando os músculos do maxilar em sincronia com as batidas da música. Muito sexy.

Sentiu sua mente começando a embaraçar as coisas. Estava para chegar uma coragem que extinguiria qualquer censura estipulada por sua timidez. Gustavo piscou com força, como se assim pudesse frear o processo efervescente do álcool. Segurou a cintura da garota, conduzindo-a com jeitinho até a parede. Um baque. Encostada.

- O meu é Gustavo. – disse ele, pousando seu chiclete com a língua no canto da boca. – E eu não costumo seguir regra.

Inclinou a cabeça e uniu seus lábios nos dela, que já estavam meio abertos para a recepção de tal festa promíscua que se seguiu. Um minuto que virou cinco e depois dez. línguas entrelaçadas numa guerra muscular. Mistura infinita de gostos e sensações. Mãos navegando pelos mares corporais e pernas frenéticas pela viagem genital.

A música ditava o ritmo da pegação. Escorria uma cachoeira de suor pela testa e descendo. A garota passou as unhas e em seguida agarrou a parte de trás dos cabelos de Gustavo. Seu moicano já desmanchara, denunciando lisos fios que escorreram pela testa. Inspirada, explorava cada centímetro dos braços expostos pela regata verde que ele adorava. Quase forte, para ele, ou na medida. Viu que teria vantagem no quesito bíceps, então abraçou a menina com vontade até pousar as mãos nos seus bolsos traseiros. Mordeu de leve aquele ombro delicado, subindo com a língua até a orelha. Soltou um suspiro que a fez tremer.

Tudo começou a rodar, e sua visão já não era nítida. Encarou a garota, de olhos arregalados. Ela parecia desapontada, e Gustavo [achava que] sabia porquê. Sabia que ela estava enlouquecida de prazer, quase selvagem. Então os dedos dela caminharam pelo cinto de Gustavo, bem devagar. Alcançou o meio da calça. Abriu o zíper e botou a mão pra dentro.

Apertou. Bem devagar.

As mãos de Gustavo tiraram a da garota, que se afastou na hora. Ela o olhou, constrangida. Gustavo esperava que ela fosse xingá-lo de qualquer coisa, ou proferir quaisquer frases ofensivas para extravasar seu profundo desapontamento. Mas uma palavra bastou. Só uma. Aquela capaz de devastar mentes masculinas.

- Broxa.

(...)





Alexandre M Arcari

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Marinheiro

Encantadores aqueles olhos. Claros e profundos. Hipnóticos.




O marinheiro debruçou-se no beiral do convés, cada vez mais absorto na deslumbrante figura que o admirava. Estendeu a mão, mas ela afastou-se bem devagar. Ele insistiu, fazendo um gesto de carinho para a imagem da perfeição. Ela aproximou-se, e enfim o marinheiro pôde tocar-lhe os cabelos.

Macios e incrivelmente secos. De um castanho sutil, quase ruivo. Ela sorriu quando a mão do marinheiro preencheu seu rosto, descendo até o queixo. Como aquela beleza encarnada aparecera ali, de repente? Naquele fim de mundo, na extensão de um mar soturno e desolado. Uma grande parcela de água seguida pela mesmice de um navio encardido.

Ela foi um pouco para trás, agarrando-se a uma rocha. O marinheiro encarou com vigor aquele rosto de linhas sinuosas, sem um mínimo defeito. Ela retribuiu o olhar, erguendo as sobrancelhas lentamente. Como num chamado de tristeza e solidão. Ela precisa de mim, pensou o marinheiro.  Olhe só essa expressão, tão digna de pena que me aperta o coração... Precisa ser amada. Esticou mais um pouco o corpo. Queria alcançá-la a qualquer custo. Salvá-la de terrível destino tal como viver a eternidade em companhia de sua consciência apenas.

Venha, disse o marinheiro. Eu lhe faço a mulher mais feliz desse mundo cão. A vida é dura, mas juntos formaremos nosso próprio ninho de luz; nossa felicidade esculpida no prazer da carne.

Viu-a abrir a boca, mas nenhuma palavra saiu. Não precisava, pois um sorriso se formava. Tímido, singelo. Como se pedisse por adoção, por carinho, por um abraço que durasse inúmeros ciclos lunares.

Eu te amo. Ele afirmou com um fervor que fabricou sua certeza. Por favor, me ame de volta. Quase deixou escapar uma lágrima, tamanho o desespero.

Um aceno. Ela me ama! Ela me ama assim como eu a amo! Eu confiaria minha vida a essa criatura. Cegamente.

Seu tronco subiu e desceu rapidamente, revelando uma barbatana onde deveriam estar seus pés. Sem dúvidas a imagem da perfeição. Motivo de instantânea paixão. De linhas milimetricamente desenhadas por Deus. Um corpo delicado e feições carentes, quase desoladas. Como se implorasse por afeto. Como se o alimento de sua espécie fosse o amor esbanjado pelo homem.

Venha, ela disse. Não disse falando. Era como um sussurro bem no ouvido do marinheiro, mas em sua mente. Não tinha certeza se era o que ele tinha ouvido ou se era o que queria ter ouvido. Mas não importa, ela me quer! A linda mulher ergueu os braços, alcançando o marinheiro e entrelaçando os dedos úmidos nos do rapaz.

Eu quero ser amado. Essa é a minha chance. Céus, os olhos dela são incríveis! Ela me quer, tenho certeza disso. Meu coração está explodindo, não posso desperdiçar uma oportunidade de ouro como esta. Eu a amo. EU A AMO!

Então o marinheiro foi lentamente puxado, pousando na superfície do oceano e encharcando seu corpo de prazer. Abraçou, beijou. Amou. Sua língua se perdia na língua dela, e suas mãos viajavam por seu corpo endeusado. Cada vez mais em êxtase. Apertou a virilha da senhorita contra a sua (foi à loucura). Cada vez mais apaixonado.

Nunca me deixe ele dizia. Não mais tinha controle sobre si. Sua alma transbordava, seu corpo gritava de tesão. Cada segundo que passava sentia-se mais realizado. E ela correspondia exatamente como ele queria; manipuladora submissão. Nunca me deixe, por favor. Eu amo você. Vou amar-te para sempre. Até a morte. Amor, este, cada dia mais

Profundo.






(16/05/2012 – 17:45)
Alexandre M Arcari

segunda-feira, 30 de abril de 2012

_XC_U_D_



Ao longe, brilhando no ritmo das nuvens, surge o segundo sol. No dia seguinte já não havia sol. No dia seguinte já não havia esperança. Mas o mundo seguiu adiante, na reconstrução por um objetivo maior. Tempos em que o dinheiro não mais importava. Todos os seres distintos se uniram, formando uma única sociedade: Humana.
Atualmente nos unimos para ajudarmos os pobres aflitos. As áreas onde domina o desespero necessitam e muito de nossa caridade. Por isso, o senado de São Paulo aprovou o envio de centenas de helicópteros contendo suprimentos às nações inferiores. Faça sua parte também, e nos ajude a ajudar países como os Estados Unidos, onde quase tudo está dominado pelo deserto, e a Europa Central, onde antes era conhecida como Suíça.
Nossa agencia de turismo oferece a você uma esplendorosa viagem às águas esverdeadas do Mar Amazônico®. Lá, você poderá conferir a exposição de fotos em nosso museu, relembrando os tempos em que as últimas árvores foram cortadas.

Queda na conexão.

Dezembro de 2007. Dois jovens corriam para manter o fôlego. Estavam enfrentando uma subida dolorosa. Subir a Emílio Carlos exigia muita perseverança, e talvez um pouco de falta de senso, pelo fato de a Inajar ser uma reta e parar no mesmo lugar.
- Está acabando! – disse o da bicicleta cinza aro vinte.
Logo atrás, o da bicicleta vermelha aro vinte e quatro forçou a pedalada. Estavam cada vez mais perto da grande descida. Os freios de ambos não funcionavam como deveria, mas isso não os impedia de fazer a última loucura como a equipe de dois.
Enfim alcançaram a descida, e por um longo instante os dois sentiram a liberdade, a emoção por estar deslizando em harmonia com o vento.
Velocidade descontrolada. Delicado equilíbrio. Pés em atrito com o asfalto. Olhos lacrimejantes. Muro à frente.
Em sincronia com os pneus dianteiros, ambos param ao mesmo tempo e na mesma faixa de pedestre.
Ao entardecer, cada um tomou seu rumo. O da bicicleta cinza retornou para arrumar as malas. O outro continuou parado no fim da ciclovia, admirando a ponte da Freguesia. Parecia fim de festa. Um grande desânimo tomou o lugar da adrenalina.
O celular tocou. A injúria ruiu.
- Estou chegando. – disse a voz do outro lado, e tudo foi resolvido numa questão de dias. Dentro desse vai e vem, alguns ficaram para trás. Não propositalmente, mas pelo enjoativo desânimo que em poucos restara.
Cada um com seu par. Cada um com sua intriga. Cada um com sua crise. Todos vivendo da incerteza de um fim, ou de um novo começo. A estrada prossegue e arrasta a todos, querendo ou não. Redundância inevitável.
A densa neblina aos poucos se desfaz. Onde não se via nada, reinava a ingenuidade. Agora se vê tudo. O céu está claro e sujo. Tempos de reflexão profunda. Saber escolher, saber se encaixar na sociedade, na comunidade. Vida determinada pelo capital. Futuro obscuro. Estradas se separam, outras se juntam.

Conectando...

“Urb, responde! Onde você ta? Volte agora! É urgente... A colônia está bloqueada. Não conseguimos sair, precisamos de ajuda. Por favor, vá buscar socorro! Não resta mais esperança em todo o setor Norte. Procure Dlm, rápido.”
- Puta que pariu! – Urb gritou, pasmo.
As rodas travaram, e seus pés adormeceram. Olhou para a linha do horizonte. Não pôde ver uma cidade normal, mas um emaranhado de circuitos prestes a explodir em milhões de pedaços. O mundo da desilusão...
A Linha, onde antes passava o Rio Tietê, era agora um grande risco no mapa, coberto por uma substância apodrecida. Nela passavam milhares de fios e raios estridentes, formando uma espécie de artéria pulsante.





Um raio dourado passou rente à orelha de Urb, deixando para trás seu som agudo. Do outro lado, os UpCars corriam como nunca, penetrando a barreira protetora. Um raio chocou-se contra a barreira e estilhaçou escandalosamente sua energia radioativa. Era arriscado continuar parado ali, apenas admirando o começo do fim.
O fim. E um novo começo. Urb podia sentir infinitas freqüências sobrecarregando sua mente. Não fazia idéia do que poderia encontrar no setor Oeste, por isso precisava tentar. Sua vida necessitava desse baque.
Voltou a pedalar.
Não pôde evitar. Olhou para cima. Lá estavam eles, os dezenove cabos de aço que sustentavam São Paulo. Eram imensos, e balançavam com o vento gélido. A noite enfim chegou. Urb prosseguiu cada vez mais rápido. A barreira estava próxima. Deu uma última espiada no céu, despedindo-se de algo que nunca mais veria em sua vida.
A bicicleta oscilou. Urb colocou os pés no chão para se equilibrar, pisando em um pedaço de carne apodrecida. Ergueu os pés, e seu estômago embrulhou. Atropelara o que um dia foi um cachorro.
Começa a descida. A bicicleta encaixa na Canaleta®. Urb forçou a vista. Não podia mais controlar seu rumo. Uma voz metálica falou em sua cabeça:
“A partir de agora, você está conectado. Não haverá retorno em um raio de treze quilômetros. Ao ultrapassar a barreira, você estará sujeito a alterações em seu sistema, ou seja, seqüelas expostas e efeitos colaterais. Caso você tenha achado o show de luzes da Linha assustador, perca sua fé em uma provável sobrevivência. E seja cauteloso na hora de atravessar a parede de distorção temporal. Boa viagem.”
- Fodeu!!! – berrou Urb, fechando os olhos com força.
Seu guidão começou a tremer enquanto o marcador era levado lentamente aos 150 Km por hora.
Ultrapassou.





“Contra todos os males da tristeza, experimente nosso novo produto. A Unilever proporciona a você a solução para todos os problemas de sua vida. Se quiser, podemos controlar suas vontades! É simples e fácil. Combate a mais fulminante das brigas entre qualquer ser humano. É de fácil aplicação e não agride seu bolso. Nós encontramos a solução! Quem diria que encontraríamos tanto poder em costumes tão antigos. Eis nossa receita para você praticar em quem precisa ser consolado ou perdoado. Sorria e abrace.”
“A incrível e subliminar arte de ser subliminar. Parece simples e fácil, mas esconder a verdade através de uma mensagem não é confortante para quem as escreve. A vontade é de revelar tudo de uma vez, mas não dá. A verdade é cruel e comprometedora, fora o medo que enfrenta seu autor. Por exemplo, quando se quer falar para alguém que ele não presta, joga-se uma idéia do tipo ‘conheço uma pessoa parecida com você, mas a diferença é que ela não presta’. Isso poderá até soar como um elogio. Uma coisa ruim transformada em uma maravilha, por não ser verdadeiramente exposta. E a pergunta é: Onde se que chegar com isso?”
“O poço é fundo. É fácil entrar. É difícil sair. É menos difícil sair quando se tem um braço lá em cima, puxando-o aos poucos. É ótimo saber que sempre haverá braços estendidos. E a questão que incomoda (...)
Assim a mensagem pára.”

Queda na conexão.

- Ale...
- Diga.
- Nada, esquece.

“O vírus que se propagou em nosso sistema, de acordo com o último pronunciamento do presidente de São Paulo, está fora de controle. Tudo que podemos fazer, quando um membro apodrece, é amputá-lo. E é o que faremos com o setor Norte. A área mais afetada será submetida a um regime fechado, numa quarentena definitiva. Se você é do setor Norte e está ouvindo esta transmissão, dentro de uma hora todo o sinal será cortado. Ninguém mais poderá entrar ou sair sem autorização. Uma rígida segurança será instalada nas fronteiras com a Linha. Obviamente ficaremos com apenas doze cabos de aço, mas é para o bem de nossa sobrevivência. Um adeus aos futuros defuntos.”

O portal em breve será fechado † vitoriosos serão os azarados mais sortudos † deste mundo encurralado † Pela eterna briga dos que se dizem moribundos.

Em tempos caóticos
Sobrevive a esperança
Da felicidade

O tempo dirá
Seu destino que é movido
Por sábias escolhas

Olhar expandido
Respirar sempre e contar
Com os companheiros

Que sempre contigo
Estarão pra lhe ajudar
Com que for possível


 Alexandre M Arcari
(19/06/2008 – 21:38)